quinta-feira, 24 de março de 2011

Noite Longa (parte 1)

        A cidade tem seus donos, como toda cidade tem. Todo mundo sabia quem eram, só não dava pra ter certeza se havia um dono absoluto. O senador Michael Kane, dono da TV Cidade e do jornal A Cidade, talvez. Ou o italiano aleijado, Giuseppe Giuliani, dono de metade dos imóveis e hotéis. E sabe-se lá do que mais. E mais meia dúzia de donos de alguma coisa, poderia ser algum deles. Mas no bairro de Riverside e próximos, todos sabiam: Billy Jones.
        Só Billy parecia não saber. Estava sempre muito calmo, muito quieto, olhando pra todos os lados por debaixo da franja, com os olhos apertados. Billy era um cara humilde, morava no mesmo apartamento de sempre, controlava a droga que entrava e saía do bairro deitado no seu sofá, quando não estava usando, por que nessas horas o sofá parecia ser feito de pregos. Mandava nas drogas, nas putas, e diziam, até em qual cavalo deveria correr mais no hipódromo. Diziam. Diziam até que aquele gancho de Phill Loreen só atingiu o queixo de Big Bob Benson no ringue por que ele não gostava de negros. O que não era verdade, ele mesmo desmentiu, uma vez: “Isso de racismo é coisa dos italianos, não é comigo” foi o que ele disse.
        Billy não era de ostentar. Não trabalhava pelo dinheiro, só queria se virar. E não deixar que passassem por cima dele, isso não. Passou tanto por cima dos quem tentou derrubá-lo que acabou por cima de todos. Era um cara frio, de caminhado forte e decidido, de olhar sempre desconfiado. E era jovem ainda, não tinha mais de 32, 33 anos. Os que trabalhavam pra ele diziam que era um gênio. Os que não, que era a porra dum louco psicopata. “eu sou só um cara normal, tentando se virar”, ele dizia. Um grande cara, o Billy. Só não tolerava desrespeito. Todos sabiam disso, e Eugene Green, ou Lil Bullet, estava amarrado a uma cadeira, num certo lugar sem vizinhos, prestes a ter muita certeza disso.
        Billy entrou porta adentro, com os olhos travados nos do negro, como se já viesse o encarando desde antes de entrar no lugar, suado e o mais alterado que podiam encontrá-lo, o que não era diferente de calmo e quieto. Bullet já tinha apanhado bastante, para o prazer de Baldie, o braço direito de Billy. O braço direito sádico de Billy. Mantinha o olhar firme, duro. Bullet não era “dobrável”. Billy andou até ele, parou a sua frente, abaixou-se num joelho para ficar cara a cara. Apertou os olhos.
        - Que merda você pensa que tá fazendo, Eugene? – disse ele, muito calmo. Quase um sussurro. – que merda você pensa... a gente não tinha um acordo? Eu ficaria em Riverside, Rose’s Garden e Saint Patrick e você com a porra do bairro dos negros inteiro, só pra você, pra você encher o cu dos seus irmãos de pedra e maconha a vontade e o que você faz? Caralho, o que você faz? Manda uma dúzia de imbecis assaltar minhas bocas, rouba meu pó, e mata dois garotos, é isso que você faz – Bullet apenas encarava, respirando forte. Seu orgulho gritava, mas ele não abria a boca. Billy se virou, incrédulo com a situação, metendo a mão no cabelo com uma mão e tirando a pistola da cintura com a outra, colocando-a sobre uma mesa.
        - Cacete, Eugene, quê que eu faço contigo? Quê que eu faço, te mando num saco preto pra tua mãe, é isso? Foi nisso que tu se confiou, não foi? Que eu não ia te matar por causa da tua mãe? Só pode ser, só pode... – arrastou uma cadeira e sentou meio esparramado, de frente para o negro calado. O olhou por um segundo e soltou um suspiro, balançando a cabeça, dando um tapa na própria coxa. – que decepção, cara, que decepção... eu realmente achei que você fosse um cara bom, mas olha o que você me obriga a fazer. E ainda fica aí calado, cheio de razão! Acha mesmo que eu vou deixar de te matar por causa da tua mãe, Eugene? – Falou pegando a arma da mesa. Do lado da porta, parado como um soldado, o que ele era, Baldie sorriu. – Acha mesmo que não posso? Que eu não vou reunir todo mundo e pegar teu bairro todo de volta? Boca por boca? Acabar com todas e deixar todo mendigo de lá sem UMA pedra pra fumar, ninguém vai vender pra ninguém de lá, nos outros bairros, pra ver cada preto, branco, japa, chicano, o caralho de Saint Hellen morrer de abstinência, acha que não? Pois é isso que eu vou fazer! – Bullet foi ficando cada vez mais ofegante, enquanto Billy não saia da sua meditação, jogado na cadeira como se tivesse falando qualquer coisa sem importância. – Eu nem preciso te matar, não. Eles vão fazer isso por mim. Eu só vou dar o motivo. Ah, - e foi se levantando – e dar uma ajuda pra eles. – encostou o cano da arma num joelho de Bullet, q abriu a boca a primeira vez. Disparou um tiro em cara joelho, à queima roupa e se virou indo para a porta, falando com Baldie. – Você ouviu, né? Vai chamando todo mundo, vamos derrubar Saint Hellen ainda essa noite. – ele foi falando, meio gritando, para a voz ficar acima dos gritos - E liga pro Damien pra ele avisar pra todo mundo que só pode vender pra quem é do bairro, nada de vender pra gente de fora por uns tempos. EI, HARRIS! – gritou, já na rua, para outro “companheiro” seu, como ele chamava-os – pega esse filho da puta chorão aí dentro e leva pra casa da mãe.
        Entrou no seu carro, sozinho. Olhou-se no retrovisor um pouco, enquanto pegava uma aspirina no porta-luvas e tomava a seco. Seus olhos estavam vermelhos, inchados. Pegou uma caixinha prateada no bolso da jaqueta, abriu, cheirou o resto de cocaína e guardou-a de volta. Fazia 2 noites que dormia muito mal, e lá se ia mais uma noite fora da cama. Negro filho da puta, pensou. Vida filha da puta.


5 comentários:

Rafael disse...

Você escreve muito bem, Andrê
=)

Rafael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carol disse...

Adorei, um dos melhores. Fiquei curiosa pra saber a parte dois (: ;*

Flávia disse...

Ótimo... adorei a introdução e os nomes dos personagens =)

b. disse...

"Vida filha da puta."